21 de janeiro de 2026
Boas novas para o Arquivo Lukács em Budapeste e o legado do filósofo marxista
Escrito por Rüdiger Dannemann para a revista alemã Neues Deutschland / ND Online, em 30 de outubro de 2025. Traduzido para o inglês por Helmut-Harry Loewen. Traduzido para o português por Marco Aurélio Palu.
György Lukács faleceu em 1971. No mesmo ano, o arquivo do filósofo húngaro e fundador do marxismo ocidental foi instalado em seu apartamento em Budapeste. Por décadas, este serviu como recurso e porta de entrada para sua obra e, portanto, para questões fundamentais da teoria marxista. Essa instituição encontra-se atualmente fechada por dois mil e setecentos dias. Seu declínio tem início com a mudança de governo na Hungria, em 2010. Um ano depois, acadêmicos japoneses escreveram na “Declaração sobre a situação da crise na Hungria” após a mais nova vitória de Viktor Orbán: “Nós também estamos preocupados com o futuro do Arquivo Lukács”. Eles pediam pela preservação “e pela proteção da atividade acadêmica independente”.
Quando, no mesmo ano, a Sociedade Internacional Georg Lukács (International Georg Lukács Society – IGLG) publicou um apelo urgente contra as medidas que já estavam sendo tomada naquela época – os afetados falavam em “violento ataque” – contra o arquivo e seus funcionários, houve uma forte demonstração de solidariedade. Acadêmicos e autores ao redor do mundo, incluindo Iring Fetscher, Timothy Hall, Wolfgang Fritz Haug, Axel Honnet, Michael Löwy, Oskar Negt, Nicolas Tertulian, e Michael J. Thompson, apelaram ao então diretor do arquivo e para o presidente da Academia Húngara de Ciências com um “pedido de esclarecimento e retirada de todas as medidas restritivas”.
Uma solução amigável fracassou
Protestos da comunidade científica internacional tiveram o efeito de adiar o fim do Arquivo, mas acabaram por não ter sucesso. Encorajados pela onda internacional de protestos, a Fundação Internacional Arquivo Lukács (International Lukács Archive Foundation – LANA) foi fundada em 2016 em Budapeste por professores universitários, editores da revista Eszmélet, e pelos antigos funcionários do Arquivo Lukács. A fundação foi uma resposta à decisão pela Academia Húngara de Ciências de eliminar o arquivo.
Não obstante, em maio de 2018, o arquivo foi fechado de facto e o importante patrimônio de Lukács foi removido, provocando uma onda internacional de protestos ainda maior. Até mesmo a Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) noticiou o caso. Mais ou menos no mesmo período, o monumento de Lukács no Parque Szent István foi desmontado. Havia sinais crescentes de que a biblioteca do filósofo, a qual permanecia no apartamento de Lukács às margens do Danúbio, também seria removida, selando assim o destino do arquivo – especialmente porque o arquivo, virtualmente inutilizado, estava em claras condições de deterioração.
Em dezembro de 2024, Franck Fishbach (Sorbonne) e outros colegas franceses intervieram contra a venda do histórico apartamento onde Lukács tivera animadas discussões com Agnes Heller e os outros membros da Escola de Budapeste. Rudi Dutschke tinha buscado ali conselhos do velho revolucionário durante a revolta estudantil. Um final feliz parecia fora de questão.
Mas ainda há esperança
Atualmente há desdobramentos favoráveis a relatar sobre o caso do Arquivo Lukács em Budapeste. Após os amargos anos de declínio e fechamento, espera-se que o arquivo continue seu trabalho num novo ordenamento institucional, nomeadamente sob a administração dos Arquivos da Cidade de Budapeste. O governo municipal da Esquerda Verde planeja assumir o controle do apartamento, onde se encontra o arquivo, da Academia Húngara de Ciências e sua biblioteca. Com essa finalidade, o direito de aluguel do apartamento foi adquirido. O objetivo da cidade é renovar o apartamento na Belgrád Rakpark 2 e torná-lo acessível novamente à comunidade acadêmica, para que o legado de Lukács e de seus alunos possa ser preservado.
O fato de que os Arquivos da Cidade de Budapeste tenham assumido o controle do apartamento de György Lukács é uma boa notícia para a comunidade científica internacional, a qual protestou por um longo período contra o fechamento dos arquivos na Hungria de Viktor Orbán. No entanto, há uma desvantagem. Embora os arquivos municipais tenham tido sucesso na aquisição da biblioteca de Lukács da academia, os documentos de Lukács – seus manuscritos, cartas e fotos – infelizmente permanecem na biblioteca da academia. Ainda há muito a ser feito também em outras áreas. A renovação do apartamento de Lukács, agendada para 2026, será um grande desafio para a cidade de Budapeste, que enfrenta dificuldades financeiras e é impopular com Orbán.
É como salienta László Gergely Szücs, do arquivo da cidade, o escritório de Lukács será renovado e aberto aos visitantes primeiro, enquanto as outras partes do apartamento sediarão programas, seminários universitários, debates, lançamento de livros e exposições sobre Lukács e a Escola de Budapeste. Abri-lo como um centro de pesquisa com uma equipe própria ainda não está na agenda, mas tanto a LANA quanto os arquivos da cidade estão comprometidos em tomar medidas para ele operar como um centro de pesquisa.
Embora Miklós Mesterházi, assistente de pesquisa nos arquivos de 1978 a 2015 e membro do conselho de administração da LANA, não queira falar em um final feliz sem ressalvas, tendo em vista as dificuldades, ele encara a situação com uma perspectiva otimista. A estrutura internacional agora formada promete “a preservação digna e acesso à pesquisa do patrimônio intelectual do filósofo mundialmente famoso após um longo período”. Isso porque o apartamento de Lukács às margens do Danúbio deve se tornar um centro para workshops acadêmicos sobre Lukács e sua escola, complementando o atual “Projeto da Escola de Budapeste”.
Szücs, que também é o diretor do arquivo da Escola de Budapeste atualmente em construção, também vê oportunidades para uma conferência internacional sobre a Escola de Budapeste, em 2027. Szücs espera que o arquivo ressuscitado de Lukács possa assim fazer parte e ser palco desta conferência de valor simbólico, quer Orbán goste ou não.
Preservando a memória
Sinais positivos a respeito da recepção de Lukács também vieram de Heidelberg em dias recentes. Em 21 de outubro, a cidade onde o jovem Lukács causou sensação junto de Ersnt Bloch no Círculo de Marx Weber, e onde ele escreveu o clássico A teoria do romance, celebrou o Dia György Lukács. Esse evento foi apoiado pela pós-graduação em Humanidades e Ciências Sociais, pelo Conselho Estudantil de Filosofia, pelo Fórum de Doutorandos, e pelo escritório municipal de cultura. A iniciativa para esse evento foi tomada por Hassan Maarfi Poor, um estudante de doutorado curdo-iraniano.
Axel Honneth, filósofo social da terceira geração da teoria crítica, enfatizou o significado do evento em um discurso comemorativo da estadia e do trabalho de Lukács em Heidelberg, à luz dos ataques ao seu legado na Hungria: “Foi aqui que o jovem estudante, em constante troca com Max Weber, reuniu suas impressões teóricas mais poderosas; foi aqui que ele estabeleceu os fundamentos filosóficos para seu trabalho posterior. Alegremo-nos por ainda ser possível, na Alemanha, preservar a memória do legado desafiador de um espírito rebelde”. Dito isso, nada mais precisa ser acrescentado.
Publicado no The Left Chapter, no dia 4 de novembro de 2025.
* Artigo original. “Um legado desafiador: Há uma nova esperança para o arquivo Georg Lukács em Budapeste e para o legado do filósofo marxista”. Rüdiger Dannemann. ND Online, 30/10/2025. O Dr. Dannemann dirige a Sociedade Internacional Georg Lukács.
12 de maio de 2022
Informamos que os Anais do Congresso Internacional Lukács 50 anos depois: pensamento vivo, realizado em 3 a 6 de junho de 2021, estão disponíveis para download nesse link.